Espaço destinado a discussão, compartilhamento e leituras de obras de História e de Ciências Sociais em geral.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
sexta-feira, 27 de julho de 2012
BERSTEIN, Serge. "A cultura política." In: RIOUX, Jean-Pierre & SIRINELLI, Jean-François. Para uma História Cultural. Lisboa: Estampa, 1998.
- A cultura política surge como oferecendo uma resposta mais satisfatória, do que qualquer das propostas até então, quer se tratasse da tese marxista de uma explicação determinista pela sociologia, da tese idealista pela adesão a uma doutrina política, ou de múltiplas teses avançadas pelos sociólogos do comportamento e mesmo pelos psicanalistas;
- A cultura política não é uma chave universal que abre todas as portas, mas um fenômeno de múltiplos parâmetros, que não leva a uma explicação unívoca, mas permite adaptar-se à complexidade dos comportamentos humanos;
- Trata-se de "uma especie de código e de um conjunto de referentes, formalizados no seio de um partido ou, mais largamente, difundidos no seio de uma família ou de uma tradição políticas;
- A importância do papel das representações na definição de uma cultura política, que faz dela outra coisa que não uma ideologia ou um conjunto de tradições além do caráter plural das culturas políticas num dado momento da história e num dado país;
- A cultura política constitui um conjunto coerente em que todos os elementos estão em estreita relação uns com os outros, permitindo definir uma forma de identidade do individuo que dela se reclama;
- Esse conjunto se compõe de 1) uma base filosófica e doutrinal, 2) uma leitura comum do passado histórico 3)uma visão institucional 4) uma concepção ideal de sociedade 5) um discurso;
- É dizer que a cultura política supre no mesmo tempo, "uma leitura comum do passado" e uma "projeção no futuro vivida em conjunto";
- Para os historiadores, é evidente que no interior de uma nação existe uma pluralidade de culturas políticas, mas com zonas de abrangência que correspondem à área dos valores partilhados. Se, num dado momento da história, essa área dos valores partilhados se mostra bastante ampla, temos então uma cultura política dominante que faz infletir pouco ou muito a maior parte das outras culturas políticas contemporâneas. Pode-se assim, admitir que, no primeiro terço do século XX, cultura política republicana desempenhou um papel dominante;
- O nascimento da cultura política corresponde às respostas dadas a uma sociedade face aos grandes problemas e às grandes crises da sua história, respostas com fundamento bastante para que se inscrevam na duração e atravessem as gerações;
- Da nova solução que propõe à sua transformação em corrente estruturada, que provoca o nascimento de uma política normativa, o prazo pode ser muito longo;
- É necessário o espaço de pelo menos duas gerações para que uma ideia nova, que traz uma resposta baseada nos problemas da sociedade, penetre nos espíritos sob forma de um conjunto de representações de caráter normativo e acabe por surgir como evidente a um grupo importante de cidadãos;
- Além do tempo, a cristalização da cultura política se faz através das instituições: família, escola, meio de trabalho, partidos políticos e a imprensa;
- Nenhum destes vetores procede por doutrinação, não obstante, a sua multiplicidade proíbe pensar que se exerce sobre um dado individuo uma influência exclusiva. A ação é variada, por vezes contraditória, e é a composição de influências diversas que acaba por dar ao homem uma cultura política, a qual é mais uma resultante do que uma mensagem unívoca;
- A cultura política assim elaborada é difundida, á escala das gerações, não é de forma alguma uma fenômeno imóvel. É um corpo vivo que continua a evoluir, que se alimenta, se enriquece com múltiplas contribuições, as das outras culturas políticas quando elas parecem trazer boas respostas aos problemas do momento, os da evolução da conjuntura que inflete as ideias e os temas, não podendo nenhuma cultura política sobreviver a prazo a uma contradição demasiado forte com as realidades;
- Mas a evolução das culturas políticas não resulta apenas de uma adaptação necessária a circunstâncias forçosamente mutáveis. Ela depende também da influência que possam exercer as culturas políticas vizinhas, na medida em que estas parecem trazer respostas baseadas nos problemas que se deparam às sociedades num dado momento da sua evolução;
- A verdadeira aposta está em compreender as motivações que levam ao homem a adotar este ou aquele comportamento político;
- A força da cultura política como elemento determinante do comportamento do individuo resulta, em primeiro lugar, da lentidão e da complexidade da sua elaboração. Adquirida no decurso da formação intelectual, beneficia do caráter de certeza das primeiras aprendizagens;
- Se a cultura política retira a sua força do fato de, interiorizada pelo individuo, determinar as motivações do ato político, ela interessa ao historiador por ser, em simultâneo, um fenômeno coletivo, partilhado por grupos inteiros que se reclamam dos mesmo postulados e viveram as mesmas experiências;
- Passando da dimensão individual a coletiva da cultura política, esta fornece uma chave que permite compreender a coesão de grupos organizados à volta de uma cultura;
- Fator de comunhão dos seus membros, ela fá-los tomar parte coletivamente numa visão comum do mundo, numa leitura partilhada do passado, de uma perspectiva de futuro, em normas, crenças, valores que constituem um patrimônio indiviso, fornecendo-lhes, para exprimir tudo isto, um vocabulário de símbolos, gestos, até canções que constituem uma verdadeiro ritual;
- A cultura política revela um dos interesses mais importantes da história cultural, o de compreender as motivações dos atos dos homens num momento da sua história, por referência ao sistema de valores, de normas, de crenças que partilham, em função da sua leitura do passado, das suas aspirações para o futuro, das suas representações da sociedade, do lugar que nem têm e da imagem que têm da felicidade.
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